Assim falou o desejo

Quando ela vem a cama fica cheia
de pernas e braços e cabelos longos e castanhos
dobrando a densidade populacional do meu colchão solteiro

Quando ela vem o travesseiro é dividido
e sonho é privilégio de olhos despertos no escuro
de curvas percorridas pelas mãos
de sopros sonolentamente sussurrados lábio a lábio
de pele provocada
arrepio
reflexo
susto muscular
provocando pressa
no lençol em fuga
já inútil
no chão

Quando ela vem o dia seguinte é modorrento
e há violões  tocantes por todos os cantos
e um arco-íris pipocando em cada gota de sabão-em-bolha que as crianças sopram das sacadas
e as ruas sem saída e recendendo a jasmim
e os relógios como velhos bêbados de um bar de esquina
a girar sem rumo e por obrigação

Casas Separadas, poema de Diego Grando
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Tenho fome de tua boca, de tua voz, de teu pêlo,
e pelas ruas vou sem nutrir-me, calado,
não me sustenta o pão, a aurora me desequilibra,
busco o som líquido de teus pés no dia.

Estou faminta de teu riso resvalado,
de tuas mãos cor de furioso celeiro,
tenho fome da pálida pedra de tuas unhas,
quero comer tua pele como uma intacta amêndoa.

Quero comer o raio queimado de tua beleza,
o nariz soberano do arrogante rosto,
quero comer a sombra fugaz de tuas pestanas

e faminta venho e vou olfateando o crepúsculo
buscando-te, buscando teu coração ardente
como um puma na solidão de Quitratué.

Pablo Neruda