Todo dia ela faz tudo sempre igual

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Sentia o toque leve da luz do Sol na sua cara. Bem leve, leve. Na pele com pele.  A leveza com todo o seu fogo arrebatando.

Sentia o frio da faca transpassando seu corpo. O calor abafado daquele corredor úmido e fedido. Não podia mais se mover. Por todos os seus poros sangrava. A tristeza invadia a sua paz fazendo-a estremecer toda de angústias que nunca tiveram razão de ser.

Sentia o bailar da música invadindo o seu corpo.  Longe, longe de tão dentro. – É óbvio, tá na cara. – Exoneração à exaustão, nem perceberia.

Sentia a preguiça impaciente de qualquer preocupação qualquer obrigação, entupi-la a quase falar chega.

Sentia o mergulho medíocre e torturante na velha paranoia, sempre por ali espreitando. Músculos enrijecidos, doloridos de tensão. Olhos inquietos, perdidos de tanto tentar descobrir sem serem descobertos. Cansaço imenso, tanta adrenalina vazia.

Sentia o gostoso da estranheza de ver diferente o tão costumeiro do olhar.

Sentia a excitação de todos os elétrons do seu corpo saltitando entre ser energia ser matéria. Ser energia e ser matéria. Ser energia ou ser matéria.

Sentia o explodir das purpurinas na sua retina. Sem quê nem pra quê aquela percepção explícita da felicidade tava ali. Vai saber é porque aquela percepção explicita da efemeridade também tava ali.

Sentia a invasão do tesão desesperado, bruto. Como viciado em êxtase. A carne vibrando. Como moto-continuo, uma onda de prazer gerando energia pruma outra onda de prazer gerando outra onda de prazer gerando outra.

Sentia a calma da inquietude do barulho da chuva aqui fora e lá dentro.

Só não conseguia era sentir o frio nos seus pés do chão.

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