Flor carnívora


É verdade tenho pena de mim e sou fraco nunca antes uma coisa nem ninguém me doeu tanto como eu mesmo me dôo agora.

Caio Fernando Abreu

Sou composta por urgências: minhas alegrias são intensas; minhas tristezas, absolutas. Me entupo de ausências, me esvazio de excessos.

Clarice Lispector

Que seja tarde. Que seja tarde!

O grito mudo entranhado na garganta. O desejo insano ardendo nas entranhas. O desespero surdo latejando nas vísceras.

O corpo molhado, suor e vontade.  A madrugada fria. O vento dançando as mil folhas. O vento cantando os mil cantos. o vento levando os mil grãos. As noites passadas repassadas em vultos. Sussurros e febre. Alucinações.

As crises anteriores haviam sido mais brandas. As lembranças de agora vieram mais ferozes, dilacerando ela toda se viesse a frente resistir. Que seja tarde!

Saiu correndo tremendo morrendo de medo do desejo de ficar.

Agora, o que faço?

A beleza de certas coisas

 

Quando ela passa eu fico um tanto sem graça, olho a toa pro céu, piso a toa no chão. Minha mente vagueia por estados em que a mente dela não estará decerto. Eu aqui, pensando nela, em lhe consumir inteira, em me dar por inteiro…

Costurando as horas com retalhos vãos.

 Volto pro meu canto, meu amor vadio se iludiu de novo. Se eu chorar outra vez, não conte a ninguém diga que foi só um erro, que me apaixonei, mas está tudo bem.

Nada é tanto assim.

Escuta: eu te deixo ser, deixa-me ser então.

Clarice Lispector

Quando eu me lembro de seus olhos de outrora tudo que me vem é que seja tarde.

Eu vejo seus olhos de agora e tudo que vem é que já é tarde.

Depois de fazer uma lista imensa de tudo que ela achava que ele deveria saber sobre, tantas coisas que ele precisa aprender e perceber! Se dava conta aos pouquinhos da fantasia toda criada.

Me deixe só. Me deixe só com minhas lembranças. Elas já me são inúteis. Você é só um borrão sem graça que já não aquece nada.  Perdeu toda sua virilidade. Toda sua intensidade. Toda sua beleza. Desde que trocou seus cabelos de lugar.

Era uma espécie de Sansão de barbas. Luminoso ao sol gostoso e inebriante daquela primavera. Seu sorriso reluzia o branco intenso dos seus dentes quando encontrava o sol de setembro. Suas roupas coloridas davam um sabor apimentado ao paladar dos meus olhos.

Mas foi só trocar os cabelos de lugar que meu disco voador foi buscar outras estrelas solares.

“Go away and close the door, please
I feel cold
Go away but leave the sun in
I feel cold
For tonight there’ll be no one to warm my room
So I’ll try to keep the heat with memories”

Que o sol entre pelas portas e janelas e almas como num dia bem intenso e quente de verão e te varra daqui pra bem longe.

http://www.radio.uol.com.br/#/busca/musica/virginia

Lóki?

 

Eu sou a louca da casa. Lúcida. Remedios, a Bela.

Simplicidade é o que há.

Assim eu quereria meu último romance

O que eu mais queria era estar errada. Era poder ter acreditado nas palavras lânguidas que me dizia. Enquanto estava entorpecido sabe se lá de quê. Eu queria não ter razão ao não crer quando dizia que gostava de mim de uma forma que não me queria ver assim, magoada. Eu queria não me decepcionar ao perceber que sabia sempre dessa sua necessidade idiota de se sentir algo, eu não queria que fosse assim.

Eu queria seu companheirismo, sua lealdade se é que há. Eu queria poder contar com você sem nenhum pudor, contar segredos de liquidificador. Sem provocar nenhuma pressão, nenhuma tensão.

Eu queria um você como eu pintei. Eu queria que você sentisse a minha falta, não por que eu sinto a sua, mas porque ia ser aconchegante saber que fui uma estúpida em todos os segundos em que não  acreditei nos seus olhos, na sua boca,  nos toques..

Eu queria que você tivesse a coragem de me fazer acreditar no que você é sentindo o que sente. Eu queria que tivesse a coragem de me responder a altura. Às alturas. Fingir que se importa.

Eu queria  você um homem, não um menino!

Eu queria poder te ferir, te fazer sangrar as lágrimas que você estupidamente limparia e já pensaria em mil e uma estratégias pra de novo se aproximar. Te fazer bem te fazendo sentir essa dor.

Eu queria poder sair por aí de mãos dadas com você sem perceber os olhares de reprovação e suas inquietudes.

Eu queria muito que meu refrigerador funcionasse, olhar pra você e não sentir mais nada. Poder sentir apenas o quão medíocre você é, se contentando com uma noite após a outra sem nenhuma paixão leve e insustentável.

Não é só o que eu vejo, é o que nos transparece, espectadores doridos ou não.

Eu só queria que nascesse essa flor, no asfalto.

Abraços partidos.

 
 

 

“E o farol da ilha procura agora por outros olhos e armadilhas.”

Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil.

Clarice Lispector

Estava se sublimando na sensação de um vazio tão sem propósito e abissal que assombraria quem pudesse ver por detrás daquela paz azul que irradiava a harmonia dos seus olhares.

Bem, já que acabou, assim doce assim desesperador, foi dormir antes de tentar mais uma vez se arriscar a sair de casa e deparar se com as pessoas e seus sorrisos mal estampados e corações machucados.

Mas riscos sempre vêm a tona. E ali, ao meio de tanta gente inquieta e sedenta, seus olhos avistaram aqueles outros pequeninos e dengosos, escondidos juntos ao seu dono acompanhando um sorriso assim, bonito e sem graça, triste e perdido.

As fantasias daquele menino, ela desconhecia. Perdeu o momento em que pra ele, tinha se tornado num encanto de moça que gostava de Guimarães Rosa. Na tentativa de aproximação, percebeu que ele já estava perto demais. Aquele menino já sabia das suas vidas debaixo do sol. O que ainda não conhecia, ele tentava desvendar com seus sorrisos lânguidos, olhos doces e perguntas efusivas. Ah! os gostares…

Num susto, perderam o tempo, se perderam entre braços, entre a neblina da noite. Entre as palavras ditas, sem promessas, sem medos.

Mas os passados inglórios, tão inacabados pertubavam demais aquela moça. Ela só queria sair dali, o menino não queria deixar. O que ele ia fazer? Enganava o seu sono com mentiras infantis pra estender o espaço ali com ela, sentindo que a moça já se deslizava pra longe dele. Sentia sua alma a flutuar do corpo, a indolência que lhe deixava o efeito do baseado indo-se.

Viu ela se afastar, com a irresponsável promessa de que não lhe deixaria a vida sem diversas cores. Ele ainda não havia percebido o gosto imenso dela por metáforas, como num sonho de Dalí.

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