Ser tão, ser muitos.

Sentir.

Ousar a prepotência de fazer o outro sentir a mesma travessia, às vezes ignorando por demais as correntezas dos rios, a aridez dos diversos sertões.

 Perceber que o caminho está na sola dos próprios pés.

 É de cada um.

 Deliciar com a lenta, tão dolorosa transmutação.

Ouvir os sussuros do palhaço colorido e dormir em paz, numa paz que transcorre por todos as trilhas mal sentidas, todos os amores mal amados, todas as feridas ainda abertas dorindo.

Ne me quitte pas

Era uma noite quente, assim como uma noite de carnaval.  O vento frio que lambia os cabelos, lembrava as noites de junho. A sede de descobrir o que havia por detrás da pacata cidade confirmava o dezembro. As três se embriagaram de endorfina, riso solto e quedaram por ali, onde já haviam vivido tantas coisas, a rememorar os passados ainda tão presentes. A falar das pernas que passavam. Das lágrimas que rolaram. Do rio que já havia secado. Já não tinham mais os mesmos olhos, o tato sentia diferente, as risadas eram mais sintéticas, as felicidades mais sofridas. As travessuras nem eram mais tão inconsequentes assim. Mas estavam de novo juntas. Não sabiam por quantas horas, então por que ficariam sentadas ali? Percebiam que já não tinham muita coisa em comum. Perceberam que talvez nunca tivessem tido. Perceberam que se mantiam unidas por mais aquela noite por um desejo insano de vagar, divagar sem rumo, perder as estribeiras até descobrirem que não havia mais chegada, era só o caminho que importava.

Flores partidas

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Prelúdio

No entanto (até no-entanto dizia agora) estava ali e era assim que se movia. Era dentro disso que precisava mover-se, sob o risco de. Não sobreviver, por exemplo – e queria? Enumerava frases como é-assim-que-as-coisas-são, ou que-se-há-de-fazer-que-se-há-de-fazer, ou apenas mas-afinal-que-importa. E a cada dia ampliava-se na boca aquele gosto de morangos mofados, verde doentio guardado no fundo escuro de alguma gaveta.

(Caio Fernando Abreu – Morangos Mofados) 

“A minha carne é de carnaval. Meu coração é igual.”

De repente, ele começou a dançar bonito e veio vindo em direção a ela. Olhando-a nos olhos, quase sorrindo, pedindo confirmação.  Alheia à luz multicolorida do bar, às cervejas entornadas a todo instante por corpos suados e bêbados que se agitavam naquele festival de carnes dali; confirmou, quase sorrindo também, boca nojenta de tanta cerveja morna, vodka com coca-cola, cachaça vagabunda e outros gostos que nem conseguia mais identificar. Fumava num frenesi um cigarro e deixou que aquele desconhecido invadisse sua boca já tão inundada de tudo. Pensou. Por todos os caminhos já sofridos até ali já não se incomodava com bocas que não cabiam na sua. Ela tinha andado por muitos lugares. Ele tinha um jeito de quem também tinha andado por muitos lugares. Num desses lugares, quem sabe. Aqui, ali. Mas não se lembrariam antes de falar. Só que não havia palavras. Havia o movimento, o suor, os corpos se aproximando, sem querer mais nada além daquele chegar mais perto…

Não conseguiu abrir os olhos. Estavam pesados. Grudados. Com medo. O seu corpo todo doía. Sua vagina ardia. Uma sensação de asco profundo percorreu todo o seu corpo antes de se virar e pousar seus olhos tristes e ainda fechados sobre aquele homem. Percorreu ainda o quarto todo, aquele quarto que exalava a álcool e cigarros,  em busca daquele resto de pó que quem sabe talvez, não, aliviaria sim, não custa tentar, aliviaria a febre que sacudia seu corpo. Dali não conseguia perceber onde estava o saquinho preto com o branco. Tentou se levantar, mas nenhum de seus músculos se moveu. Sentiu, então, que o homem se movia, uma dor tão profunda lhe ocorreu que ela não suportou o movimento do ar que trazia as mãos daquele homem por sobre seu, cansado. Estremeceu. Gozo, nojo ou medo, não saberia. Quis tentar fugir e sentiu aquele corpo pesando por sobre o seu e uma boca molhada, uma boca funda feito um poço invadindo todos os seus poros sem escrúpulos e sem permissão. Num grito empurrou aquele corpo pra longe do seu e se encolheu. Sentiu na cama o corpo daquele homem virar pro outro lado e durmir.

Um choro culpado calado cortante intensificava  a dor de cabeça da ressaca. Como iria se livrar daquele corpo dourado tatuado forte que parecia morto exausto sobre o seu lençol que tentava, em vão, continuar branco? Tentou durmir, seu corpo doía lacerado. Tentou pensar, sua cabeça latejava. Seus olhos molhados fixos no espelho miravam os tremeliques do seu corpo encolhido. Sentiu uma pena ensurdecedora da vida que a levava cada vez mais próxima ao vazio. Sentiu um cansaço tão grande que a levava a exaustão. Tão grande, que adormeceu num sono só e agoniante.

Acordou adivinhando os movimentos que o homem fazia ao se vestir. Fingiu que continuava a durmir com medo de que seu corpo lhe denunciasse e aquele homem viesse lhe falar. Só que não havia palavras. Havia o movimento, o suor, os corpos se afastando, sem querer mais nada além daquele ir embora.

Quando ouviu a porta batendo às suas costas, num suspiro tentou sorrir ao ouvir alguém que passava pela rua àquela hora cantar  here comes the sun..

Não amarás!

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Extasiada.

Ela não sabia de sua atordoada existência. Ele não a conhecia. Mas sabia de cada detalhe de seu cotidiano, de sua casa, de seu corpo, seus amantes..

 Não sabia ele que ela nada conhecia sobre o amor. Não sobre aquele amor que invadia todos os seus sentidos enquanto sentava a espionar sua janela, tentando em vão desvendar sua alma. Daquilo que poderia até ser considerado uma forma dolorosa de sentir a vida.

São formas diferentes de sentir, e daí?

Ele nem sequer sabia o que queria dela.

O que poderia querer além de só sentir?

Não se pode julgar Tormek por deslumbrar-se pelo desconhecido. Talvez tampouco condenar Magda por zombar de sentimentos que não vislumbrava. Que ela não conseguia, ao menos, respeitar.

Nem sempre sente-se na mesma medida. Com a mesma intensidade.

Isso é sofrer?

Sentir. Participar. Compartilhar, mesmo que a espreita, da vida de alguém, de suas dores e seus deleites.

 Estranho reconhecimento.

Supostas equivalências mórbidas.

Tempos passados

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Ela riu quando eu disse que era a pessoa mais justa e sensata que eu conhecia.

E em meio à loucura das fumaças suspirou que parecia que o sol amanhecia dentro dela quando  a manhã inundava o seu quarto.

Parecia  feliz. E parecia sensata. Mesmo com todas as intempéries que atacavam a sua vida tão pacata na maior parte do tempo.

Sorria. Saía. Bebia. Fumava.  Queria parecer forte. Queria deixar que a chuva de sapos limpasse sua vida e alma, que o perdão chegasse logo.

Não sentia mais raiva. Não sentia mais amor. Não sentia mais compaixão. Mal sentia dor..  Sentia – se vazia. Só queria que aquilo que sentia e que não era nada, passasse logo. A angústia de não sentir nada de realmente intenso a consumia cruel e lentamente.

Os dias passavam – se sem ela lhes dar nenhuma importância. Seus olhos rasos, marejados onde morava toda uma tristeza sustentavam um olhar distante e vazio. Era possível enxergar o nada do abismo, quando procurávamos aquele doce olhar de outrora. E mesmo assim, julgamo-na feliz.

Não percebi que ela lutava contra desamores enquanto sorria pra mim.

Disse a ela pra não usar mais o velho vestido que atraía afetos desafetuosos.

Mas um dia, quando tudo parecia mesmo ter acabado, quando seu olhar já era de novo doce, alegre e festivo, ela botou o vestido de luto.

Ele atraiu seu mais intenso afeto desafetuoso e sua  vida voltou a circundar a beira do abismo. 

E então o sol se pôs atrás da porta.

Um bonito poema feito por alguém muito bonito também!

Para Bel, com amor…

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Será que ela virá?
Partindo meu coração em mil pedaços
Espalhados por um chão molhado
E encerado pelas lágrimas de velhos passados
Tão pretéritos e tão vivos ao mesmo tempo
E tão azuis, amarelos e vermelhos
Ora brancos e infinitos
Nas montanhas da terra onde nasci.
Será que ela virá?
Trazendo os acordes mais belos
E a paz tão quieta
Feito a verdade que não cala
A vida que se finda
Ou um mundo que chora e geme
Gemendo à dor do parto
Da fome
Da seca
Da vida e da morte.

Escrito por Maurício Beirão, meu querido Alemão.
(Eu vou, e ganharei a aposta, meu bem!)

Elas caem ao chão…

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Felicidade que me habita.

Calma que me abraça.

Euforia que me acompanha.

E na quarta-feira eu não estarei cinza (s).   Estarei mais é sob purpurinas  cintilantes e paetês multicoloridos.

Colombina que me vive!

Desatinada pelas ruas de pedras ainda, di-amante do Vale.

Os dias se desmanchando, já cantando, alegrias a chorar, des – rasgar fantasias desvairadas.

E talvez eu não volte.

Não.

Talvez eu encontre Januária na janela com seus olhos de mar, marejados.

E eu vá com ela… não-nascer no tempo da maldade do faz-de-conta que já foi destruído pelas dançarinas mortas.

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