Assim falou o desejo

Quando ela vem a cama fica cheia
de pernas e braços e cabelos longos e castanhos
dobrando a densidade populacional do meu colchão solteiro

Quando ela vem o travesseiro é dividido
e sonho é privilégio de olhos despertos no escuro
de curvas percorridas pelas mãos
de sopros sonolentamente sussurrados lábio a lábio
de pele provocada
arrepio
reflexo
susto muscular
provocando pressa
no lençol em fuga
já inútil
no chão

Quando ela vem o dia seguinte é modorrento
e há violões  tocantes por todos os cantos
e um arco-íris pipocando em cada gota de sabão-em-bolha que as crianças sopram das sacadas
e as ruas sem saída e recendendo a jasmim
e os relógios como velhos bêbados de um bar de esquina
a girar sem rumo e por obrigação

Casas Separadas, poema de Diego Grando
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Todo dia ela faz tudo sempre igual

http://www.flickr.com/photos/derbyblue/

Sentia o toque leve da luz do Sol na sua cara. Bem leve, leve. Na pele com pele.  A leveza com todo o seu fogo arrebatando.

Sentia o frio da faca transpassando seu corpo. O calor abafado daquele corredor úmido e fedido. Não podia mais se mover. Por todos os seus poros sangrava. A tristeza invadia a sua paz fazendo-a estremecer toda de angústias que nunca tiveram razão de ser.

Sentia o bailar da música invadindo o seu corpo.  Longe, longe de tão dentro. – É óbvio, tá na cara. – Exoneração à exaustão, nem perceberia.

Sentia a preguiça impaciente de qualquer preocupação qualquer obrigação, entupi-la a quase falar chega.

Sentia o mergulho medíocre e torturante na velha paranoia, sempre por ali espreitando. Músculos enrijecidos, doloridos de tensão. Olhos inquietos, perdidos de tanto tentar descobrir sem serem descobertos. Cansaço imenso, tanta adrenalina vazia.

Sentia o gostoso da estranheza de ver diferente o tão costumeiro do olhar.

Sentia a excitação de todos os elétrons do seu corpo saltitando entre ser energia ser matéria. Ser energia e ser matéria. Ser energia ou ser matéria.

Sentia o explodir das purpurinas na sua retina. Sem quê nem pra quê aquela percepção explícita da felicidade tava ali. Vai saber é porque aquela percepção explicita da efemeridade também tava ali.

Sentia a invasão do tesão desesperado, bruto. Como viciado em êxtase. A carne vibrando. Como moto-continuo, uma onda de prazer gerando energia pruma outra onda de prazer gerando outra onda de prazer gerando outra.

Sentia a calma da inquietude do barulho da chuva aqui fora e lá dentro.

Só não conseguia era sentir o frio nos seus pés do chão.

Trishna

– Nem tudo no meu mundo gira em torno do sexo.

-É porque você nunca teve um orgasmo.

Ausência

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces.
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada.
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei… tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

Flor carnívora


É verdade tenho pena de mim e sou fraco nunca antes uma coisa nem ninguém me doeu tanto como eu mesmo me dôo agora.

Caio Fernando Abreu

Sou composta por urgências: minhas alegrias são intensas; minhas tristezas, absolutas. Me entupo de ausências, me esvazio de excessos.

Clarice Lispector

Que seja tarde. Que seja tarde!

O grito mudo entranhado na garganta. O desejo insano ardendo nas entranhas. O desespero surdo latejando nas vísceras.

O corpo molhado, suor e vontade.  A madrugada fria. O vento dançando as mil folhas. O vento cantando os mil cantos. o vento levando os mil grãos. As noites passadas repassadas em vultos. Sussurros e febre. Alucinações.

As crises anteriores haviam sido mais brandas. As lembranças de agora vieram mais ferozes, dilacerando ela toda se viesse a frente resistir. Que seja tarde!

Saiu correndo tremendo morrendo de medo do desejo de ficar.

Nada é tanto assim.

Escuta: eu te deixo ser, deixa-me ser então.

Clarice Lispector

Quando eu me lembro de seus olhos de outrora tudo que me vem é que seja tarde.

Eu vejo seus olhos de agora e tudo que vem é que já é tarde.

Depois de fazer uma lista imensa de tudo que ela achava que ele deveria saber sobre, tantas coisas que ele precisa aprender e perceber! Se dava conta aos pouquinhos da fantasia toda criada.

Me deixe só. Me deixe só com minhas lembranças. Elas já me são inúteis. Você é só um borrão sem graça que já não aquece nada.  Perdeu toda sua virilidade. Toda sua intensidade. Toda sua beleza. Desde que trocou seus cabelos de lugar.

Era uma espécie de Sansão de barbas. Luminoso ao sol gostoso e inebriante daquela primavera. Seu sorriso reluzia o branco intenso dos seus dentes quando encontrava o sol de setembro. Suas roupas coloridas davam um sabor apimentado ao paladar dos meus olhos.

Mas foi só trocar os cabelos de lugar que meu disco voador foi buscar outras estrelas solares.

“Go away and close the door, please
I feel cold
Go away but leave the sun in
I feel cold
For tonight there’ll be no one to warm my room
So I’ll try to keep the heat with memories”

Que o sol entre pelas portas e janelas e almas como num dia bem intenso e quente de verão e te varra daqui pra bem longe.

http://www.radio.uol.com.br/#/busca/musica/virginia

Assim eu quereria meu último romance

O que eu mais queria era estar errada. Era poder ter acreditado nas palavras lânguidas que me dizia. Enquanto estava entorpecido sabe se lá de quê. Eu queria não ter razão ao não crer quando dizia que gostava de mim de uma forma que não me queria ver assim, magoada. Eu queria não me decepcionar ao perceber que sabia sempre dessa sua necessidade idiota de se sentir algo, eu não queria que fosse assim.

Eu queria seu companheirismo, sua lealdade se é que há. Eu queria poder contar com você sem nenhum pudor, contar segredos de liquidificador. Sem provocar nenhuma pressão, nenhuma tensão.

Eu queria um você como eu pintei. Eu queria que você sentisse a minha falta, não por que eu sinto a sua, mas porque ia ser aconchegante saber que fui uma estúpida em todos os segundos em que não  acreditei nos seus olhos, na sua boca,  nos toques..

Eu queria que você tivesse a coragem de me fazer acreditar no que você é sentindo o que sente. Eu queria que tivesse a coragem de me responder a altura. Às alturas. Fingir que se importa.

Eu queria  você um homem, não um menino!

Eu queria poder te ferir, te fazer sangrar as lágrimas que você estupidamente limparia e já pensaria em mil e uma estratégias pra de novo se aproximar. Te fazer bem te fazendo sentir essa dor.

Eu queria poder sair por aí de mãos dadas com você sem perceber os olhares de reprovação e suas inquietudes.

Eu queria muito que meu refrigerador funcionasse, olhar pra você e não sentir mais nada. Poder sentir apenas o quão medíocre você é, se contentando com uma noite após a outra sem nenhuma paixão leve e insustentável.

Não é só o que eu vejo, é o que nos transparece, espectadores doridos ou não.

Eu só queria que nascesse essa flor, no asfalto.

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