A balada do café triste

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E se eu tiver mais uma vez me enganando?

Eugênio teve um pesadelo, acordou mais cedo sentindo a presença da moça a seu lado. Procurou o sorriso que ela sempre estampava na face enquanto dormia. Mas não estava lá nem sorriso, nem moça alguma.

Há tempos a moça se foi, o seu cheiro continuava impregnado no olfato de Eugênio. Eugênio fechava os olhos e via a moça lhe sorrindo e seus olhinhos lânguidos e morenos dizendo-lhe algo que Eugênio não conseguia nunca entender.

Quando a moça se foi, Eugênio teve a certeza de que não conseguiria suportar tantas mudanças na sua jornada cotidiana por butecos e paralelepípedos das ruas da cidade. Eugênio não chorou nem reclamou abrigo. Sentiu um abraço forte, não era medo, era qualquer coisa da moça que ficou em Eugênio.

E Eugênio se agarrou a essa paz de não se desesperar mais pela cidade afora em busca de sua moça. 

Então em um dia leve e alegre, a moça lhe aparece trazendo consigo todos os seus demônios e loucuras. Eugênio aceitou a moça por mais aquela noite. Eugênio aceitou suas pernas, sua boca, suas promessas vãs. Eugênio sabia que a moça iria partir de novo.

De repente Eugênio viu que perdeu e estava perdendo alguma coisa morna e ingênua que ficava pelo caminho frio e escuro.

Olhou e viu a sombra no lençol que sentia a pele fina da moça. Eugênio viu seus olhos se movendo sem se abrir. Eugênio moveu seus olhos sem mais uma vez conseguir abrir a moça. Aquela  moça, que sempre esteve ali, tão sempre perto sem o ver, tão certa e só sendo.

Eugênio em um instante pôde perceber que não suportava mais o inferno das inconstâncias da moça.  Longe dela, Eugênio estava aprendendo a ser leve, a ser livre.

Eugênio compreendeu que mesmo privando-se da moça sempre vivia.

Eugênio então partiu. E deixou que a moça partisse.

 Eugênio não vai mais se importar com a maldade daqueles que nada sabem.

A balada do café triste

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O traumático nem sempre é aquilo que faz ruídos, e sim o que fica mudo. E lá, do silêncio, faz (ruir).”

Eugênio se aprazava com a deliciosa presença da moça. E ela, de lá, nem o via. Estavam na mesma festa, mesmo espaço e tempo, talvez.  Bêbados. Amigos em comum. Longa história juntos. E a moça não se dava pela presença faminta de Eugênio. Não se dava pelo querer de Eugênio.

Eugênio, ao seu modo dramático, sangrava.  Tentou suas maneiras de se fazer notar.

A  moça o olhava, mas não o via.

Eugênio sossegava. Sabia que, ao final da noite, a moça estaria em seus braços dizendo que lhe desejou assim que pôs seus olhos lânguidos e morenos sobre ele.

O que lhe restava por hora era distrair-se com a voz cortante de Janis Joplin que invadia todo o salão.

A balada do café triste

 nostalgia

 

Ôh Eugênio!  Já é hora de acabar com isso. Nenhum belo sorriso compensa tanto sofrimento seu..

Não há que se submeter à perversão da moça pra satisfazer seus caprichos libidinosos, Eugênio.

Eugênio oblíquo se entrega cada vez mais às vertigens daquele abismo. Se não ficar atento, é bem possível que Eugênio se jogue na frente de um carro que passa pela rua, tão grande e intenso o desejo de cair.

E Eugênio caía. Nos braços. Na conversa da moça. Acreditava quando essa lhe dizia toda a vontade que sentia dele. Eugênio cria. Mesmo quando não dava e duvidava. Quando a moça sumia e só lhe aparecia casualmente em algum beco da rua.

Quando ela lhe abraçava, Eugênio se esquecia da vida. Virava fumaça efêmera toda a dor que havia existido na noite anterior. Toda a dor do ciúme doentio que sentiu ao ler as doces palavras que a moça havia escrito a um outro amado.

Eugênio entendia que era ele apenas mais um mimo da moça. Sabia que ela não lhe tinha o mesmo amor. Mas se enganava Eugênio. Deixava-se, pois, enganar. Era tão excitante a sensação de se sentir amado! que Eugênio fingia não perceber a unilateralidade. O pensamento da moça em outro(s).

Eugênio morria a cada promessa de amor da moça ao outro. Mas tal era a dor de não tê-la, que Eugênio se habituou a sentir apenas pequena pontada de ciúmes e esquecer logo aquilo, como se não passasse de brincadeira banal de criança.

Eugênio habituou-se a sufocar sua dor. coisa sem importância perto da beleza do que sentia quando estava nos braços daquela moça.

 

“Não sei amar pela metade, não sei viver de mentiras, não sei voar com os pés no chão..”

A balada do café triste

nostalgia

 

” O inferno são os outros”, afirmava Sartre.

Pode existir algo mais perturbador do que quando os medos e delírios dos outros penetram nossas almas e nos deixam confusos e perdidos?

Eugênio já nem sequer sabia o que queria. O que sentia, já não era mais tão simples ou fácil de expressar.

 

Se perdera na loucura e nos demônios da moça..

 

Tá certo que Eugênio nunca fora um cara muito expressivo, sempre bastante obtuso.  Constantes dificuldades em assumir e encarar seus sentimentos. Eugênio nunca aprendeu a perder. 

E foi assim, com seu ar de solitário oblíquo que seus olhos se deram pela presença da moça, ali parada na sua frente, distraída, com fones nos ouvidos, como se o mundo que transpirava e lutava ao seu redor não lhe tivesse a menor importância. Não fosse sequer digno de uma  mísera atenção dos seus ouvidos.

 

Eugênio assistiu perplexo àquela moça dele a se aproximar. Mal sabia ele que sua vida agora estaria constantemente à beira do abismo.