Dois perdidos numa noite suja

“Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou cinza dos dias, bem assim: que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo, repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante. Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se fosse nada.”
 
Caio Fernando Abreu

 

Ele andava desembestado pela vida.  Não sabia o que queria, não sabia o que fazia. Não havia escolhido viver naquela cidade nem estudar aquele curso. Sentia-se levado pelas circunstâncias que seguiam o rumo natural das coisas. Pelo menos para a maioria das pessoas que conhecia aquele era o rumo natural das coisas. Sentia-se um bicho fora do seu nicho.

Contentava-se com a vida medíocre que o levava , e a levava com uma lealdade característica dos que aceitam o fracasso como parte do corpo.

A cada encontro casual, a cada transa estouvada, tentava deseperadamente fugir do destino que lhe foi dado a seguir. Recusava-se a admitir que lhe foi confiado que cada passo de seu pai seria repetido por ele. Não queria reconhecer que a sua vida seguiria o ciclo que seu progenitor havia traçado. Mal percebia ele que a cada passo dado para se distanciar da sua história preconcebida mais se encostava a ela.

Ela andava buscando ilusões. Nunca soube o que era viver a realidade. Nunca sofreu um amor que não fosse por bem inventado. Ambicionava pouco. Desejava apenas que a sua cama pudesse estar aquecida por quase todas as noites. Mas esquecia-se que era naturalmente uma sozinha. Por isso desesperava-se cada vez que a temperatura do quarto elevava-se estimulada por um fator constante.

Quando adentrou o quarto da moça admirou-se com tamanha organização. Parecia até que ela era como uma daquelas pessoas que já conhecera, obcecada por conceituar cada suspiro solto.

Ela contou sobre esse seu amigo, desvairado, que tentando conter a própria loucura, estudava psicologia. Um dia, esse amigo lhe dissera que a desorganização ou falta dela, espelhava a vida interior e sentimentos sombrios do ser humano. Ele deu um risinho confuso, sem saber o que ela queria lhe dizer. Ela olhou bem fundo nos seus olhos e suspirou dizendo que não era mais mistério pra ela o que sentia e o queria, não havia mais motivo que bagunças em seu quarto. O que então lhe afligia ?

– Ah! a bagunça dos outros. Perdição nunca  é no singular. Não é não. Ah! é tudo tão vago como se fosse nada.

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