Inquietudes do silêncio

 

O sol assombrava:
“Daquele tamaninho
e com um tal coração!
Vai partir-lhe a espinha!
Como, será que cabem
nesse tico de gente
o rio,
o coração,
eu
e cem quilômetros de montanhas?”
(Maiakóvski)

A enfermeira eufórica, com aquele tico de gente ensanguentado nos braços, grita: ” Vai ser uma vida longa!”   O médico exausto, num suspiro murmura: “Vai ser uma longa vida…”

E o tico de gente preto ouviria ao longos dos anos a descrição cada vez mais poética naquela noite chuvosa de dezembro num assobro premonitório. Vida longa é sempre só longevidade? E o pacote de arroz vazio se tornava pra ela sua bagagem onde guardava seus pertences a que se transformavam os papéis velhos que encontrava por aí e saía casa fora, seu mundo inteiro, que ia desbravando junto a seus três amiguinhos secretos, invisíveis e mágicos. Mas com quatro anos já uma mocinha não pode sair por aí fazendo essas coisas! Então, tardava na cama, na esperança de ter um momento solitário pra poder desfrutar daquele prazer também solitário que descobrira quando tocara seu próprio corpo e a envergonhava. Teresa já começara a forjar suas fantasias…

A cada dia acordava sendo um personagem diferente. Enquanto costurava seus anseios matinais, o toquinho de gente bordava sua personifcação diária e moldava os companheiros da sempre nova peça. O dia inteiro era uma alegria sem fim! E se chovia então? O céu se fechando, escurecendo, aquele barulho ensurdecedor… A principio, o medo. Depois vinha um deslumbramento de descobrir, ali, a  beleza da melancolia. E depois de todo corre corre de fecha janelas, recolhe a roupa do varal, desliga tomadas, se sentava no alpendre da cozinha de fora com a cabecinha repousada por sobre as pequenas mãos a se deleitar com aquela água que caía bruta. Introvertida, se lembrava das estórias tenebrosas da avó e se punha a lembrar baixinho: “anjinho da minha guarda, meu doce amiguinho, me leve sempre para o bom caminho.”  E em seus devaneios o bom caminho sempre era aquela estradinha de terra ainda úmida da chuva que acabara de cair e que levava a uma andança longa, muito longa e incerta. A estradinha sempre estreita, triste, como toda tristeza morna que habita uma tarde depois da chuva e o coração do sertanejo cansado, pronto pra recomeçar a travessia.

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