Flores partidas

desespero_2

Prelúdio

No entanto (até no-entanto dizia agora) estava ali e era assim que se movia. Era dentro disso que precisava mover-se, sob o risco de. Não sobreviver, por exemplo – e queria? Enumerava frases como é-assim-que-as-coisas-são, ou que-se-há-de-fazer-que-se-há-de-fazer, ou apenas mas-afinal-que-importa. E a cada dia ampliava-se na boca aquele gosto de morangos mofados, verde doentio guardado no fundo escuro de alguma gaveta.

(Caio Fernando Abreu – Morangos Mofados) 

“A minha carne é de carnaval. Meu coração é igual.”

De repente, ele começou a dançar bonito e veio vindo em direção a ela. Olhando-a nos olhos, quase sorrindo, pedindo confirmação.  Alheia à luz multicolorida do bar, às cervejas entornadas a todo instante por corpos suados e bêbados que se agitavam naquele festival de carnes dali; confirmou, quase sorrindo também, boca nojenta de tanta cerveja morna, vodka com coca-cola, cachaça vagabunda e outros gostos que nem conseguia mais identificar. Fumava num frenesi um cigarro e deixou que aquele desconhecido invadisse sua boca já tão inundada de tudo. Pensou. Por todos os caminhos já sofridos até ali já não se incomodava com bocas que não cabiam na sua. Ela tinha andado por muitos lugares. Ele tinha um jeito de quem também tinha andado por muitos lugares. Num desses lugares, quem sabe. Aqui, ali. Mas não se lembrariam antes de falar. Só que não havia palavras. Havia o movimento, o suor, os corpos se aproximando, sem querer mais nada além daquele chegar mais perto…

Não conseguiu abrir os olhos. Estavam pesados. Grudados. Com medo. O seu corpo todo doía. Sua vagina ardia. Uma sensação de asco profundo percorreu todo o seu corpo antes de se virar e pousar seus olhos tristes e ainda fechados sobre aquele homem. Percorreu ainda o quarto todo, aquele quarto que exalava a álcool e cigarros,  em busca daquele resto de pó que quem sabe talvez, não, aliviaria sim, não custa tentar, aliviaria a febre que sacudia seu corpo. Dali não conseguia perceber onde estava o saquinho preto com o branco. Tentou se levantar, mas nenhum de seus músculos se moveu. Sentiu, então, que o homem se movia, uma dor tão profunda lhe ocorreu que ela não suportou o movimento do ar que trazia as mãos daquele homem por sobre seu, cansado. Estremeceu. Gozo, nojo ou medo, não saberia. Quis tentar fugir e sentiu aquele corpo pesando por sobre o seu e uma boca molhada, uma boca funda feito um poço invadindo todos os seus poros sem escrúpulos e sem permissão. Num grito empurrou aquele corpo pra longe do seu e se encolheu. Sentiu na cama o corpo daquele homem virar pro outro lado e durmir.

Um choro culpado calado cortante intensificava  a dor de cabeça da ressaca. Como iria se livrar daquele corpo dourado tatuado forte que parecia morto exausto sobre o seu lençol que tentava, em vão, continuar branco? Tentou durmir, seu corpo doía lacerado. Tentou pensar, sua cabeça latejava. Seus olhos molhados fixos no espelho miravam os tremeliques do seu corpo encolhido. Sentiu uma pena ensurdecedora da vida que a levava cada vez mais próxima ao vazio. Sentiu um cansaço tão grande que a levava a exaustão. Tão grande, que adormeceu num sono só e agoniante.

Acordou adivinhando os movimentos que o homem fazia ao se vestir. Fingiu que continuava a durmir com medo de que seu corpo lhe denunciasse e aquele homem viesse lhe falar. Só que não havia palavras. Havia o movimento, o suor, os corpos se afastando, sem querer mais nada além daquele ir embora.

Quando ouviu a porta batendo às suas costas, num suspiro tentou sorrir ao ouvir alguém que passava pela rua àquela hora cantar  here comes the sun..

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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. talita
    nov 03, 2009 @ 19:42:51

    é uma sensação um tanto quanto familiar pra mim.

    feliz, ou infelizmente.

    Responder

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