Cinema mudo (do amor sem palavras..)

klimt

 

“Dispenso o silêncio e concentração. Tenho feito da noite meu dia, e você não perde esse jeito todo único de se fazer sonho em minhas insônias.
Aí eu fico querendo buscar uns versos muito lindos pra te entregar, e acabo borrando tudo.
Busco companhia nos livros, nas palavras soltas, nas letras que viram notas musicais e eu já nem sei ler, mais.

Eu ganho. Fico estufada de sentimentos presos, de vontades guardadas, de um doce enjoativo, de uma acidez bem dosada, e pensando em tudo o que você não sabe. Tudo o que eu não disse.

Não digo.

Vou procurando me desfazer das metáforas todas.
É insuportável tentar entendê-las, agora. Existe um termômetro desregulado das emoções incertas que me habitam. A proporção é nenhuma.
Pára de olhar pra essa taça de vinho tinto, e enxerga essa tempestade castanha que nasce em meus olhos. É que eu sempre achei que você entendesse meus gestos.

Por exemplo, agora. Agora que eu te entranho a alma com esse meu olhar desmistificado, você não sente meu peso em si? Carrega ele com você, também. Pra mim, quero asas.

Mas deixa a música de lado, mais importante é a noção do meu dizer hoje, em palavras. Você sabe da minha trava em expor sentimentos? 

Ah, eu quero sim outra taça de vinho. As palavras fluem melhor com essa dose de torpor. Manda esse garçom trazer a garrafa inteira. Gosto de excessos. Cansei de metades. Não, não de você, metade.

Apaga esse cigarro, que o quê eu quero cantar, hoje, fumaça nenhuma desenha. É puro nervosismo essa minha mão falante. Ah, não me entrega esse olhar de pesquisa, não. Tá ouvindo o barulho dos meus cadeados se abrindo? É o medo que dá de saber você me invadindo, eu não sei nem narrar. Eu nem me importo em me rasgar toda, pra você.

Os avessos dos meus avessos não escondem mistérios tantos, assim.

Ah, minha alma vadia! Espalha os segredos todos quando encontra a tua, tão desvairada quanto. Desnudas, ambas. Você sente assim? Sei que sente. Mas sei que você precisa de palavras, e eu não sei entregá-las. Por isso sigo nesse ensaio, assim. Eu quero te dizer uma porção de coisas, menino. Em uma desproporção incomum, numa pose desarrazoada. 

Deixa eu dar um trago nesse cigarro? Viu? Nada na fumaça. Eu me sinto agora como quando em casa. Eu lá, sentada nas almofadas espalhadas pela sala inteira, brincando de pisar no macio por temer a certeza do chão.
É bom fantasiar. E eu fico lá, torcendo cachos, roendo a mão.

 E eu ainda fico assim, pensando. É que eu preciso muito que você saiba…

E já tá quase amanhecendo. Agora que você segura minha mão… Você é tão atraentemente bobo! 
 Fica aí, sorrindo, nesse atropelo de palavras. Ô, menino, como você me faz bem! E o que eu mais queria era poder te contar do céu que enxergo em teu olhar e das estrelas todas que já andei pendurando nele.

Ai, essas metáforas descabidas me arrasam! Sabe o que eu vejo de mim? Personagem do cinema mudo de antigamente. Expressões e gestos que dispensavam palavras. Tá que a gente como casal remete aos espectadores qualquer coisa de Almodóvar, bizarros que somos em nossa essência.

Ei, me prende agora! Me pega pra você, assim, sem rodeios, encostado nessa árvore. Você tem gosto de fruta mordida. E eu preciso provar todo o tempo, pra saber se você existe, ou se é junção das minhas invenções.

 Que seja!  E eu quero te dizer tanto. Fecha a porta? Me desengasgar cairia bem, agora. Largar mão dessas travas e expulsar sem poréns o resumo um tanto lúdico das nossas horas.

É que você deitado aqui nesse sofá, brincando com minhas mãos e me olhando sem piscar, devolve minha mudez e me faz engolir seco. Aí eu entendo o porquê de perder o som.

Penso que as palavras soando no universo do teu eu, vigiado por esses olhos verdes, me fazem correr o risco de cair pra dentro de você. E eu sei que vou gostar tanto, que não vou querer mais voltar. Resolvo arriscar agora, que teus olhinhos de conchas se fecharam com os brilhos das pérolas que carregam:

-Eu já amo você, menino. – digo, num sopro que te beija inteiro.”

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