Curta – metragem de Louis Clichy (école gobelins, france) com a música “A quoi ça sert l’amour” interpretada por Edith Piaf e Theo Sarapo.

Curta – metragem de Louis Clichy (école gobelins, france) com a música “A quoi ça sert l’amour” interpretada por Edith Piaf e Theo Sarapo.

“Mas se eu tivesse ficado, teria sido diferente?
Melhor interromper o processo em meio: quando se conhece o fim, quando se sabe que doerá muito mais – por que ir em frente?
Não há sentido: melhor escapar deixando uma lembrança qualquer , lenço esquecido numa gaveta, camisa jogada na cadeira, uma fotografia – qualquer coisa que depois de muito tempo a gente possa olhar e sorrir, mesmo sem saber por quê.
Melhor do que não sobrar nada , e que esse nada seja áspero como um tempo perdido.
Eu prefiro viver a ilusão do quase, quando estou “quase” certa que desistindo naquele momento vou levar comigo uma coisa bonita. Quando eu “quase” tenho certeza que insistir naquilo vai me fazer sofrer, que insistir em algo ou alguém pode não terminar da melhor maneira, que pode não ser do jeito que eu queria que fosse, eu jogo tudo pro alto, sem arrependimentos futuros!
Eu prefiro viver com a incerteza de ter dado certo, que com a certeza de ter acabado em dor. Talvez loucura, medo, eu diria covardia, loucura quem sabe!”
(CFA)

Era uma noite quente, assim como uma noite de carnaval. O vento frio que lambia os cabelos, lembrava as noites de junho. A sede de descobrir o que havia por detrás da pacata cidade confirmava o dezembro. As três se embriagaram de endorfina, riso solto e quedaram por ali, onde já haviam vivido tantas coisas, a rememorar os passados ainda tão presentes. A falar das pernas que passavam. Das lágrimas que rolaram. Do rio que já havia secado. Já não tinham mais os mesmos olhos, o tato sentia diferente, as risadas eram mais sintéticas, as felicidades mais sofridas. As travessuras nem eram mais tão inconsequentes assim. Mas estavam de novo juntas. Não sabiam por quantas horas, então por que ficariam sentadas ali? Percebiam que já não tinham muita coisa em comum. Perceberam que talvez nunca tivessem tido. Perceberam que se mantiam unidas por mais aquela noite por um desejo insano de vagar, divagar sem rumo, perder as estribeiras até descobrirem que não havia mais chegada, era só o caminho que importava.

O sol assombrava:
“Daquele tamaninho
e com um tal coração!
Vai partir-lhe a espinha!
Como, será que cabem
nesse tico de gente
o rio,
o coração,
eu
e cem quilômetros de montanhas?”
(Maiakóvski)
A enfermeira eufórica, com aquele tico de gente ensanguentado nos braços, grita: ” Vai ser uma vida longa!” O médico exausto, num suspiro murmura: “Vai ser uma longa vida…”
E o tico de gente preto ouviria ao longos dos anos a descrição cada vez mais poética naquela noite chuvosa de dezembro num assobro premonitório. Vida longa é sempre só longevidade? E o pacote de arroz vazio se tornava pra ela sua bagagem onde guardava seus pertences a que se transformavam os papéis velhos que encontrava por aí e saía casa fora, seu mundo inteiro, que ia desbravando junto a seus três amiguinhos secretos, invisíveis e mágicos. Mas com quatro anos já uma mocinha não pode sair por aí fazendo essas coisas! Então, tardava na cama, na esperança de ter um momento solitário pra poder desfrutar daquele prazer também solitário que descobrira quando tocara seu próprio corpo e a envergonhava. Teresa já começara a forjar suas fantasias…
A cada dia acordava sendo um personagem diferente. Enquanto costurava seus anseios matinais, o toquinho de gente bordava sua personifcação diária e moldava os companheiros da sempre nova peça. O dia inteiro era uma alegria sem fim! E se chovia então? O céu se fechando, escurecendo, aquele barulho ensurdecedor… A principio, o medo. Depois vinha um deslumbramento de descobrir, ali, a beleza da melancolia. E depois de todo corre corre de fecha janelas, recolhe a roupa do varal, desliga tomadas, se sentava no alpendre da cozinha de fora com a cabecinha repousada por sobre as pequenas mãos a se deleitar com aquela água que caía bruta. Introvertida, se lembrava das estórias tenebrosas da avó e se punha a lembrar baixinho: “anjinho da minha guarda, meu doce amiguinho, me leve sempre para o bom caminho.” E em seus devaneios o bom caminho sempre era aquela estradinha de terra ainda úmida da chuva que acabara de cair e que levava a uma andança longa, muito longa e incerta. A estradinha sempre estreita, triste, como toda tristeza morna que habita uma tarde depois da chuva e o coração do sertanejo cansado, pronto pra recomeçar a travessia.

Pelo que vale, nunca é tarde ou cedo demais. Seja aquilo que você quiser ser. Não há limite de tempo, pode começar quando quiser. Pode mudar ou ficar na mesma. Não há regras pra isso.
Pode escolher o melhor ou o pior da vida. Espero que escolha o melhor da vida. Espero que veja coisas que lhe surpreendam. Espero que sinta coisas que nunca sentiu antes. Espero que conheça pessoas com diferentes pontos de vista.
E espero que viva uma vida da qual se orgulhe. E se acordar pensando que é capaz, espero que tenha a força “de começar de novo”.
“O meu samba vai curar teu abandono. Meu samba vai te acordar do sono. Meu samba não quer ver você tão triste! O meu samba vai curar a dor que existe.”


Prelúdio
No entanto (até no-entanto dizia agora) estava ali e era assim que se movia. Era dentro disso que precisava mover-se, sob o risco de. Não sobreviver, por exemplo – e queria? Enumerava frases como é-assim-que-as-coisas-são, ou que-se-há-de-fazer-que-se-há-de-fazer, ou apenas mas-afinal-que-importa. E a cada dia ampliava-se na boca aquele gosto de morangos mofados, verde doentio guardado no fundo escuro de alguma gaveta.
(Morangos Mofados- Caio Fernando Abreu)
“O meu sangue é de carnaval. Meu coração é igual.”
De repente, ele começou a dançar bonito e veio vindo em direção a ela. Olhando-a nos olhos, quase sorrindo, pedindo confirmação. Alheia à luz multicolorida do bar, às cervejas entornadas a todo instante por corpos suados e bêbados que se agitavam naquele festival de carnes dali; confirmou, quase sorrindo também, boca nojenta de tanta cerveja morna, vodka com coca-cola, cachaça vagabunda e outros gostos que nem conseguia mais identificar. Fumava num frenesi um cigarro e deixou que aquele desconhecido invadisse sua boca já tão inundada de tudo. Pensou. Por todos os caminhos já sofridos até ali já não se incomodava com bocas que não cabiam na sua. Ela tinha andado por muitos lugares. Ele tinha um jeito de quem também tinha andado por muitos lugares. Num desses lugares, quem sabe. Aqui, ali. Mas não se lembrariam antes de falar. Só que não havia palavras. Havia o movimento, o suor, os corpos se aproximando, sem querer mais nada além daquele chegar mais perto…
Não conseguiu abrir os olhos. Estavam pesados. Grudados. Com medo. O seu corpo todo doía. Sua vagina ardia. Uma sensação de asco profundo percorreu todo o seu corpo antes de se virar e pousar seus olhos tristes e ainda fechados sobre aquele homem. Percorreu ainda o quarto todo, aquele quarto que exalava a álcool e cigarros, em busca daquele resto de pó que quem sabe talvez, não, aliviaria sim, não custa tentar, aliviaria a febre que sacudia seu corpo. Dali não conseguia perceber onde estava o saquinho preto com o branco. Tentou se levantar, mas nenhum de seus músculos se moveu. Sentiu, então, que o homem se movia, uma dor tão profunda lhe ocorreu que ela não suportou o movimento do ar que trazia as mãos daquele homem por sobre seu, cansado. Estremeceu. Gozo, nojo ou medo, não saberia. Quis tentar fugir e sentiu aquele corpo pesando por sobre o seu e uma boca molhada, uma boca funda feito um poço invadindo todos os seus poros sem escrúpulos e sem permissão. Num grito empurrou aquele corpo pra longe do seu e se encolheu. Sentiu na cama o corpo daquele homem virar pro outro lado e durmir.
Um choro culpado calado cortante intensificava a dor de cabeça da ressaca. Como iria se livrar daquele corpo dourado tatuado forte que parecia morto exausto sobre o seu lençol que tentava, em vão, continuar branco? Tentou durmir, seu corpo doía lacerado. Tentou pensar, sua cabeça latejava. Seus olhos molhados fixos no espelho miravam os tremeliques do seu corpo encolhido. Sentiu uma pena ensurdecedora da vida que a levava cada vez mais próxima ao vazio. Sentiu um cansaço tão grande que a levava a exaustão. Tão grande, que adormeceu num sono só e agoniante.
Acordou adivinhando os movimentos que o homem fazia ao se vestir. Fingiu que continuava a durmir com medo de que seu corpo lhe denunciasse e aquele homem viesse lhe falar. Só que não havia palavras. Havia o movimento, o suor, os corpos se afastando, sem querer mais nada além daquele ir embora.
Quando ouviu a porta batendo às suas costas, num suspiro tentou sorrir ao ouvir alguém que passava pela rua àquela hora cantar here comes the sun..


“Eu não me espanto com a Terra sendo a estrela de alguém.”
Eu já escuto seus sinais. Eu já sinto o seu cheiro se aproximando de mim. Não, não! Não venha rápido. Venha assim, nessa sua languidez altiva de quem sabe me levar no jeito, jogando em cima de mim seus olhos lascivos e meigos. Me desvendando em cada sorriso. Me invadindo sem escrupúlos.
Chegue mansamente feroz. E descubra meus pensamentos a cada toque seu. Fale, como sempre, cuidadosamente,o que possa me ferir e sorria sem graça acariciando os traços do meu rosto, me beijando os olhos enquanto desdiz tudo que disse com alegorias tão coloridas que nem percebe.
Venha sem pressa. Bata na porta com a aflição de quem chegou querendo ficar, mas sabendo a bagunça que seria sua demora. Me conte com tem sido seus dias como quem tenta disfarçar a falta de intimidade. Me intimida mostrando que é o senhor de todos os meus gestos. Me toque demonstrando quão intímo é do meu corpo.
De uma calada maneira, chegue assim sorrindo como se fosse a primavera e eu morrendo. Murmure no escuro tudo que é tão difícil dizer. Aperte os olhos enquanto cautelosamente sente meus sussurros. Respire nos meus cabelos. Transcenda a cada passado lembrado. Me toma feito um viciado.
Me deixe. Queimando por dentro. Com todos os tremores me vindo agitar. Acordando atribulada enquanto dorme sereno sonhando com as maçãs.
Mas, meu amor, não se atrase na volta não.


Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.
“silêncio
- Quando a noite chegar cedo e a neve cobrir as ruas, ficarei o dia inteiro na cama pensando em dormir com você.
- Quando estiver muito quente, me dará uma moleza de balançar devagarinho na rede pensando em dormir com você.
- Vou te escrever carta e não mandar.
- Vou tentar recompor teu rosto sem conseguir.
- Vou ver Júpiter e me lembrar de você.
- Vou ver Saturno e me lembrar de você.
- Mesmo quando não estivessem mais juntos.
- Daqui a vinte anos voltarão a se encontrar.
- O tempo não existe.
- O tempo existe e devora.
- Vou procurar teu cheiro no corpo de outra mulher. Sem encontrar, porque terei esquecido. Alfazema?
- Alecrim. Quando eu olhar a noite enorme do Equador, pensarei se tudo isso foi um encontro ou uma despedida.
- E que uma palavra ou um gesto, seu ou meu, seria suficiente para modificar nossos roteiros.
silêncio
- Mas não seria natural.
- Natural é as pessoas se encontrarem e se perderem.
- Natural é encontrar. Natural é perder.
- Linhas paralelas se encontram no infinito.
- O infinito não acaba. O infinito é nunca.
- Ou sempre.
silêncio
- Tudo isso é muito abstrato. Está tocando Kiss, Kiss, Kiss. Por que você não me convida para dormirmos juntos?
- Você quer dormir comigo?
- Não.
- Por que não é preciso?
- Porque não é preciso.
silêncio
- Me beija.
- Te beijo.
[...]
Mas as memórias de cada um eram tantas que ela imediatamete entendeu e aceitou, desaparecendo da janela no exato instante em que ele atravessou a avenida sem olhar pra trás.”
(Morangos Mofados – Caio Fernando Abreu)

Extasiada.
Ela não sabia de sua atordoada existência. Ele não a conhecia. Mas sabia de cada detalhe de seu cotidiano, de sua casa, de seu corpo, seus amantes..
Não sabia ele que ela nada conhecia sobre o amor. Não sobre aquele amor que invadia todos os seus sentidos enquanto sentava a espionar sua janela, tentando em vão desvendar sua alma. Daquilo que poderia até ser considerado uma forma dolorosa de sentir a vida.
São formas diferentes de sentir, e daí?
Ele nem sequer sabia o que queria dela.
O que poderia querer além de só sentir?
Não se pode julgar Tormek por deslumbrar-se pelo desconhecido. Talvez tampouco condenar Magda por zombar de sentimentos que não vislumbrava. Que ela não conseguia, ao menos, respeitar.
Nem sempre sente-se na mesma medida. Com a mesma intensidade.
Isso é sofrer?
Sentir. Participar. Compartilhar, mesmo que a espreita, da vida de alguém, de suas dores e seus deleites.
Estranho reconhecimento.
Supostas equivalências mórbidas.