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Flores partidas

Outubro 25, 2009

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Prelúdio

No entanto (até no-entanto dizia agora) estava ali e era assim que se movia. Era dentro disso que precisava mover-se, sob o risco de. Não sobreviver, por exemplo – e queria? Enumerava frases como é-assim-que-as-coisas-são, ou que-se-há-de-fazer-que-se-há-de-fazer, ou apenas mas-afinal-que-importa. E a cada dia ampliava-se na boca aquele gosto de morangos mofados, verde doentio guardado no fundo escuro de alguma gaveta.

(Morangos Mofados- Caio Fernando Abreu) 

“O meu sangue é de carnaval. Meu coração é igual.”

De repente, ele começou a dançar bonito e veio vindo em direção a ela. Olhando-a nos olhos, quase sorrindo, pedindo confirmação.  Alheia à luz multicolorida do bar, às cervejas entornadas a todo instante por corpos suados e bêbados que se agitavam naquele festival de carnes dali; confirmou, quase sorrindo também, boca nojenta de tanta cerveja morna, vodka com coca-cola, cachaça vagabunda e outros gostos que nem conseguia mais identificar. Fumava num frenesi um cigarro e deixou que aquele desconhecido invadisse sua boca já tão inundada de tudo. Pensou. Por todos os caminhos já sofridos até ali já não se incomodava com bocas que não cabiam na sua. Ela tinha andado por muitos lugares. Ele tinha um jeito de quem também tinha andado por muitos lugares. Num desses lugares, quem sabe. Aqui, ali. Mas não se lembrariam antes de falar. Só que não havia palavras. Havia o movimento, o suor, os corpos se aproximando, sem querer mais nada além daquele chegar mais perto…

Não conseguiu abrir os olhos. Estavam pesados. Grudados. Com medo. O seu corpo todo doía. Sua vagina ardia. Uma sensação de asco profundo percorreu todo o seu corpo antes de se virar e pousar seus olhos tristes e ainda fechados sobre aquele homem. Percorreu ainda o quarto todo, aquele quarto que exalava a álcool e cigarros,  em busca daquele resto de pó que quem sabe talvez, não, aliviaria sim, não custa tentar, aliviaria a febre que sacudia seu corpo. Dali não conseguia perceber onde estava o saquinho preto com o branco. Tentou se levantar, mas nenhum de seus músculos se moveu. Sentiu, então, que o homem se movia, uma dor tão profunda lhe ocorreu que ela não suportou o movimento do ar que trazia as mãos daquele homem por sobre seu, cansado. Estremeceu. Gozo, nojo ou medo, não saberia. Quis tentar fugir e sentiu aquele corpo pesando por sobre o seu e uma boca molhada, uma boca funda feito um poço invadindo todos os seus poros sem escrúpulos e sem permissão. Num grito empurrou aquele corpo pra longe do seu e se encolheu. Sentiu na cama o corpo daquele homem virar pro outro lado e durmir.

Um choro culpado calado cortante intensificava  a dor de cabeça da ressaca. Como iria se livrar daquele corpo dourado tatuado forte que parecia morto exausto sobre o seu lençol que tentava, em vão, continuar branco? Tentou durmir, seu corpo doía lacerado. Tentou pensar, sua cabeça latejava. Seus olhos molhados fixos no espelho miravam os tremeliques do seu corpo encolhido. Sentiu uma pena ensurdecedora da vida que a levava cada vez mais próxima ao vazio. Sentiu um cansaço tão grande que a levava a exaustão. Tão grande, que adormeceu num sono só e agoniante.

Acordou adivinhando os movimentos que o homem fazia ao se vestir. Fingiu que continuava a durmir com medo de que seu corpo lhe denunciasse e aquele homem viesse lhe falar. Só que não havia palavras. Havia o movimento, o suor, os corpos se afastando, sem querer mais nada além daquele ir embora.

Quando ouviu a porta batendo às suas costas, num suspiro tentou sorrir ao ouvir alguém que passava pela rua àquela hora cantar  here comes the sun..

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Porto solidão

Outubro 22, 2009

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“Eu não me espanto com a Terra sendo a estrela de alguém.”

Eu já escuto seus sinais. Eu já sinto o seu cheiro se aproximando de mim. Não, não! Não venha rápido. Venha assim, nessa sua languidez altiva de quem sabe me levar no jeito, jogando em cima de mim seus olhos lascivos e meigos. Me desvendando em cada sorriso.  Me invadindo sem escrupúlos.

Chegue mansamente feroz. E descubra meus pensamentos a cada toque seu. Fale, como sempre, cuidadosamente,o que possa me ferir e sorria sem graça acariciando os traços do meu rosto, me beijando os olhos enquanto desdiz tudo que disse com alegorias tão coloridas que nem percebe.

Venha sem pressa. Bata na porta com a aflição de quem chegou querendo ficar, mas sabendo a bagunça que seria sua demora. Me conte com tem sido seus dias como quem tenta disfarçar a falta de intimidade. Me intimida mostrando que é o senhor de todos os meus gestos. Me toque demonstrando quão intímo é do meu corpo.

De uma calada maneira, chegue assim sorrindo como se fosse a primavera e eu morrendo. Murmure no escuro tudo que é tão difícil dizer. Aperte os olhos enquanto cautelosamente sente meus sussurros. Respire nos meus cabelos. Transcenda a cada passado lembrado. Me toma feito um viciado. 

Me deixe. Queimando por dentro. Com todos os tremores me vindo agitar. Acordando atribulada enquanto dorme sereno sonhando com as maçãs.

Mas, meu amor, não se atrase na volta não.

 

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O dia em que Júpiter encontrou Saturno

Outubro 14, 2009

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Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.

“silêncio

- Quando a noite chegar cedo e a neve cobrir as ruas, ficarei o dia inteiro na cama pensando em dormir com você.

- Quando estiver muito quente, me dará uma moleza de balançar devagarinho na rede pensando em dormir com você.

- Vou te escrever carta e não mandar.

- Vou tentar recompor teu rosto sem conseguir.

- Vou ver Júpiter e me lembrar de você.

- Vou ver Saturno e me lembrar de você.

- Mesmo quando não estivessem mais juntos.

- Daqui a vinte anos voltarão a se encontrar.

- O tempo não existe.

- O tempo existe e devora.

- Vou procurar teu cheiro no corpo de outra mulher. Sem encontrar, porque terei esquecido. Alfazema?

- Alecrim. Quando eu olhar a noite enorme do Equador, pensarei se tudo isso foi um encontro ou uma despedida.

- E que uma palavra ou um gesto, seu ou meu, seria suficiente para modificar nossos roteiros.

silêncio

- Mas não seria natural.

- Natural é as pessoas se encontrarem e se perderem.

- Natural é encontrar. Natural é perder.

- Linhas paralelas se encontram no infinito.

- O infinito não acaba. O infinito é nunca.

- Ou sempre.

silêncio

- Tudo isso é muito abstrato. Está tocando Kiss, Kiss, Kiss. Por que você não me convida para dormirmos juntos?

- Você quer dormir comigo?

- Não.

- Por que não é preciso?

- Porque não é preciso.

silêncio

- Me beija.

- Te beijo.

[...]

        Mas as memórias de cada um eram tantas que ela imediatamete entendeu e aceitou, desaparecendo da janela no exato instante em que ele atravessou a avenida sem olhar pra trás.”

(Morangos Mofados –  Caio Fernando Abreu)

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Não amarás!

Outubro 9, 2009

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Extasiada.

Ela não sabia de sua atordoada existência. Ele não a conhecia. Mas sabia de cada detalhe de seu cotidiano, de sua casa, de seu corpo, seus amantes..

 Não sabia ele que ela nada conhecia sobre o amor. Não sobre aquele amor que invadia todos os seus sentidos enquanto sentava a espionar sua janela, tentando em vão desvendar sua alma. Daquilo que poderia até ser considerado uma forma dolorosa de sentir a vida.

São formas diferentes de sentir, e daí?

Ele nem sequer sabia o que queria dela.

O que poderia querer além de só sentir?

Não se pode julgar Tormek por deslumbrar-se pelo desconhecido. Talvez tampouco condenar Magda por zombar de sentimentos que não vislumbrava. Que ela não conseguia, ao menos, respeitar.

Nem sempre sente-se na mesma medida. Com a mesma intensidade.

Isso é sofrer?

Sentir. Participar. Compartilhar, mesmo que a espreita, da vida de alguém, de suas dores e seus deleites.

 Estranho reconhecimento.

Supostas equivalências mórbidas.

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São coisas da vida

Outubro 6, 2009

Eu percebi desde o início sua fugacidade. Como ter olhos tão efêmeros se não era próprio, todo assim?

Olhos que oferecem todo um mundo infinito, que parece tão eterno na embriaguez do mergulho, para, então, em seguida, fugirem assustados e deixarem todo um rastro de inquietudes.

Não me entrega esse olhar de promessas não, porque o que eu sinto agora promessa nehuma acalenta.

‘Já que o brilho desse olhar foi traidor e entregou o que você tentou conter, o que você não quis desabafar e me cortou.’

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“Encostei-me a ti, sabendo bem que eras somente onda.

Sabendo bem que eras nuvem, depus a minha vida em ti.

Como sabia bem tudo isso, e dei-me ao teu destino frágil,

fiquei sem poder chorar, quando caí.”

(Cecília Meireles) 

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Coisas belas e sujas

Setembro 30, 2009

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Deixou sentir o vento gelado lhe bater no rosto.

Respirou fundo e sentiu aquele cheiro de chuva..

Foi pra longe.

Permitiu que aquele cheiro de chuva que lhe entranhava as narinas, invandido-o todo, lhe trouxesse vagas lembranças de um tempo em que lágrimas e chuva lhe confundiam incessantemente.

 

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Além de dois, existem mais..

Setembro 28, 2009

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Acordou com essa sensação de desconforto. Como quem acaba de sair de um pesadelo agoniante.

Olhou pra trás e viu um mundo cheio de angústias e pessoas estúpidas.

As mágoas de outrora tinham, porém,  um novo brilho. Depois da névoa ensurdecedora, era possível tatear novos sentimentos.

De liberdade. De compaixão. De verdadeira compreensão.

Ligou o som. Tocava Billie Holiday. Era preciso amar sempre. Mas, de qual forma? Como, se o amor que a humanidade inspira é tantas vezes sórdido?

Como não se deixar inundar pela sensação que todos são iguais?

Abstraiu..

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A balada do café triste

Setembro 13, 2009

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E se eu tiver mais uma vez me enganando?

Eugênio teve um pesadelo, acordou mais cedo sentindo a presença da moça a seu lado. Procurou o sorriso que ela sempre estampava na face enquanto dormia. Mas não estava lá nem sorriso, nem moça alguma.

Há tempos a moça se foi, o seu cheiro continuava impregnado no olfato de Eugênio. Eugênio fechava os olhos e via a moça lhe sorrindo e seus olhinhos lânguidos e morenos dizendo-lhe algo que Eugênio não conseguia nunca entender.

Quando a moça se foi, Eugênio teve a certeza de que não conseguiria suportar tantas mudanças na sua jornada cotidiana por butecos e paralelepípedos das ruas da cidade. Eugênio não chorou nem reclamou abrigo. Sentiu um abraço forte, não era medo, era qualquer coisa da moça que ficou em Eugênio.

E Eugênio se agarrou a essa paz de não se desesperar mais pela cidade afora em busca de sua moça. 

Então em um dia leve e alegre, a moça lhe aparece trazendo consigo todos os seus demônios e loucuras. Eugênio aceitou a moça por mais aquela noite. Eugênio aceitou suas pernas, sua boca, suas promessas vãs. Eugênio sabia que a moça iria partir de novo.

De repente Eugênio viu que perdeu e estava perdendo alguma coisa morna e ingênua que ficava pelo caminho frio e escuro.

Olhou e viu a sombra no lençol que sentia a pele fina da moça. Eugênio viu seus olhos se movendo sem se abrir. Eugênio moveu seus olhos sem mais uma vez conseguir abrir a moça. Aquela  moça, que sempre esteve ali, tão sempre perto sem o ver, tão certa e só sendo.

Eugênio em um instante pôde perceber que não suportava mais o inferno das inconstâncias da moça.  Longe dela, Eugênio estava aprendendo a ser leve, a ser livre.

Eugênio compreendeu que mesmo privando-se da moça sempre vivia.

Eugênio então partiu. E deixou que a moça partisse.

 Eugênio não vai mais se importar com a maldade daqueles que nada sabem.

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Cinema mudo (do amor sem palavras..)

Setembro 12, 2009

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“Dispenso o silêncio e concentração. Tenho feito da noite meu dia, e você não perde esse jeito todo único de se fazer sonho em minhas insônias.
Aí eu fico querendo buscar uns versos muito lindos pra te entregar, e acabo borrando tudo.
Busco companhia nos livros, nas palavras soltas, nas letras que viram notas musicais e eu já nem sei ler, mais.

Eu ganho. Fico estufada de sentimentos presos, de vontades guardadas, de um doce enjoativo, de uma acidez bem dosada, e pensando em tudo o que você não sabe. Tudo o que eu não disse.

Não digo.

Vou procurando me desfazer das metáforas todas.
É insuportável tentar entendê-las, agora. Existe um termômetro desregulado das emoções incertas que me habitam. A proporção é nenhuma.
Pára de olhar pra essa taça de vinho tinto, e enxerga essa tempestade castanha que nasce em meus olhos. É que eu sempre achei que você entendesse meus gestos.

Por exemplo, agora. Agora que eu te entranho a alma com esse meu olhar desmistificado, você não sente meu peso em si? Carrega ele com você, também. Pra mim, quero asas.

Mas deixa a música de lado, mais importante é a noção do meu dizer hoje, em palavras. Você sabe da minha trava em expor sentimentos? 

Ah, eu quero sim outra taça de vinho. As palavras fluem melhor com essa dose de torpor. Manda esse garçom trazer a garrafa inteira. Gosto de excessos. Cansei de metades. Não, não de você, metade.

Apaga esse cigarro, que o quê eu quero cantar, hoje, fumaça nenhuma desenha. É puro nervosismo essa minha mão falante. Ah, não me entrega esse olhar de pesquisa, não. Tá ouvindo o barulho dos meus cadeados se abrindo? É o medo que dá de saber você me invadindo, eu não sei nem narrar. Eu nem me importo em me rasgar toda, pra você.

Os avessos dos meus avessos não escondem mistérios tantos, assim.

Ah, minha alma vadia! Espalha os segredos todos quando encontra a tua, tão desvairada quanto. Desnudas, ambas. Você sente assim? Sei que sente. Mas sei que você precisa de palavras, e eu não sei entregá-las. Por isso sigo nesse ensaio, assim. Eu quero te dizer uma porção de coisas, menino. Em uma desproporção incomum, numa pose desarrazoada. 

Deixa eu dar um trago nesse cigarro? Viu? Nada na fumaça. Eu me sinto agora como quando em casa. Eu lá, sentada nas almofadas espalhadas pela sala inteira, brincando de pisar no macio por temer a certeza do chão.
É bom fantasiar. E eu fico lá, torcendo cachos, roendo a mão.

 E eu ainda fico assim, pensando. É que eu preciso muito que você saiba…

E já tá quase amanhecendo. Agora que você segura minha mão… Você é tão atraentemente bobo! 
 Fica aí, sorrindo, nesse atropelo de palavras. Ô, menino, como você me faz bem! E o que eu mais queria era poder te contar do céu que enxergo em teu olhar e das estrelas todas que já andei pendurando nele.

Ai, essas metáforas descabidas me arrasam! Sabe o que eu vejo de mim? Personagem do cinema mudo de antigamente. Expressões e gestos que dispensavam palavras. Tá que a gente como casal remete aos espectadores qualquer coisa de Almodóvar, bizarros que somos em nossa essência.

Ei, me prende agora! Me pega pra você, assim, sem rodeios, encostado nessa árvore. Você tem gosto de fruta mordida. E eu preciso provar todo o tempo, pra saber se você existe, ou se é junção das minhas invenções.

 Que seja!  E eu quero te dizer tanto. Fecha a porta? Me desengasgar cairia bem, agora. Largar mão dessas travas e expulsar sem poréns o resumo um tanto lúdico das nossas horas.

É que você deitado aqui nesse sofá, brincando com minhas mãos e me olhando sem piscar, devolve minha mudez e me faz engolir seco. Aí eu entendo o porquê de perder o som.

Penso que as palavras soando no universo do teu eu, vigiado por esses olhos verdes, me fazem correr o risco de cair pra dentro de você. E eu sei que vou gostar tanto, que não vou querer mais voltar. Resolvo arriscar agora, que teus olhinhos de conchas se fecharam com os brilhos das pérolas que carregam:

-Eu já amo você, menino. - digo, num sopro que te beija inteiro.”

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Meu refrigerador não funciona!

Agosto 20, 2009

 

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Abstração e amor

Talvez seja mais belo e favorável à poesia
Que nunca te manifestes totalmente a mim
E que continuemos a nos ver na obscuridade
Para que eu, guardando a eterna nostalgia de ti,
Jamais possa me sentir saciado.

[...]

Há entre mim e ti zonas de sombra
Contornadas por anjos divinatórios.
Há entre mim e ti o mínimo necessário
Para assegurar tua invisibilidade.

[...]
Ainda não és um mito, ainda não estás
Fixada na invisível realidade.

(Murilo Mendes)

 

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Solitário

Como um fantasma que se refugia
Na solidão da natureza morta,
Por trás dos ermos túmulos, um dia,
Eu fui refugiar-me à tua porta!

Fazia frio e o frio que fazia
Não era esse que a carne nos conforta…
Cortava assim como em carniçaria
O aço das facas incisivas corta!

Mas tu não vieste ver minha Desgraça!
E eu saí, como quem tudo repele,
- Velho caixão a carregar destroços

-Levando apenas na tumbal carcaça
O pergaminho singular da pele
E o chocalho fatídico dos ossos!

(Augusto dos Anjos)

 

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Impaciência

(duas variações sobre o mesmo tema)

I

Eu queria dormir
longamente…
(um sono só…)
Para esperar assim
o divino momento que eu pressinto,
em que hás de ser minha…

Mas…
e se essa hora
não devesse chegar nunca?…
Se o tempo,
como as outras cousas todas,
te separa de mim?!…

Então…
ah! então eu gostaria
que o meu sono,
friíssimo e sem sonhos
(um sono só…)
não tivesse mais fim…

II

Se eu pudesse correr pelo tempo afora,
vertiginosamente,
futuro adiante,
saltando tantas horas tediosas,
vazias de ti,
e voar assim até o momento de todos os momentos,
em que hás de ser minha!…

Mas…
e se esse minuto faltar
nas areias de todas as ampulhetas?…
E se tudo fosse inútil:
a máquina de Wells,
as botas de sete léguas do Gigante?!…

Então…
ah!, então eu gostaria
de desviver para trás, dia por dia,
para parar só naquele instante,
e nele ficar, eternamente, prisioneiro…
(Tu sabes, aquele instante em que sorrias
e me fizeste chorar…)

(Guimarães Rosa)